O Brasil encerrou julho de 2026 com 972 mil novos postos formais criados no acumulado do ano. O estoque de vínculos chegou a mais de 48 milhões e o salário médio real de admissão ficou em R$ 2.419,23. São números importantes e merecem ser reconhecidos. Afinal, emprego significa renda, alguma previsibilidade e a possibilidade de reorganizar a própria vida.
Mas há outra estatística, divulgada no início de setembro, que parece contar uma história diferente sobre o mesmo país.
Uma pesquisa realizada pela Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, revelou que 89% dos entrevistados já sentiram a saúde mental afetada por problemas financeiros. Para 71%, as dificuldades com dinheiro prejudicaram o sono. Em 2025, esse percentual era de 54%.
Em apenas um ano, o problema deixou de bater à porta e passou a dormir dentro de casa.
A pesquisa ouviu 1.140 pessoas, entre os dias 19 e 26 de agosto de 2026. O levantamento também mostrou que 53% perceberam alterações no humor, 50% sofreram impactos na autoestima e 47% enfrentaram instabilidade emocional em razão das finanças. Mais grave ainda, 62% já deixaram de procurar ajuda psicológica por não conseguirem pagar.
Não estamos falando apenas de pessoas sem trabalho.
Estamos falando de pessoas que trabalham, recebem salário, cumprem metas, participam de reuniões, respondem mensagens fora do expediente e, ainda assim, não conseguem descansar sem fazer contas mentalmente.
O país trabalha. Mas não dorme.
Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa, o Brasil chegou a 83,9 milhões de consumidores negativados em agosto, o maior número da série histórica. Isso significa que o crescimento do emprego, embora seja uma excelente notícia, não conseguiu produzir na mesma proporção uma sensação coletiva de segurança.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostrou que a renda média do trabalho chegou a R$ 3.762 no trimestre móvel encerrado em julho de 2026, valor 3,3% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior. Entretanto, quando comparada ao pico alcançado no primeiro trimestre, a renda do segundo trimestre apresentou queda de 1,5%.
Os números não se anulam. Eles se completam.
É possível que o emprego cresça e, ao mesmo tempo, a insegurança permaneça. É possível que a renda média avance enquanto uma parcela imensa da população continua presa entre o vencimento do cartão, o aluguel, o supermercado, os medicamentos, a mensalidade escolar e a ajuda oferecida a algum familiar.
A estatística econômica registra se a pessoa está ocupada. Mas não registra o que acontece em sua cabeça quando ela fecha a porta de casa.
Há mais de 25 anos trabalhando com pessoas, carreiras, recrutamento, lideranças e saúde emocional, aprendi que o sofrimento financeiro raramente aparece no ambiente profissional com o seu verdadeiro nome.
Ele chega disfarçado.
Surge como irritabilidade, queda de concentração, medo excessivo de perder o emprego, dificuldade de tomar decisões, resistência a mudanças, ausência de criatividade e submissão a situações que a pessoa reconhece como injustas, mas não se sente economicamente livre para enfrentar.
Quem depende desesperadamente do próximo salário não negocia apenas uma relação de trabalho. Negocia a própria sobrevivência.
Nesse contexto, a palavra liberdade merece ser observada com mais cuidado. Uma pessoa pode ser formalmente livre para pedir demissão, discordar de um superior ou recusar uma condição abusiva. Porém, quando existe uma dívida vencendo, um filho dependendo daquela renda ou nenhum dinheiro guardado, essa liberdade torna-se quase abstrata.
A necessidade também silencia.
Na psicanálise, o dinheiro não representa apenas aquilo que se pode comprar. Ele pode carregar significados ligados à segurança, ao poder, ao reconhecimento, à autonomia, à culpa e ao medo do abandono. Por isso, uma crise financeira não atinge somente o orçamento. Ela ameaça a imagem que a pessoa construiu sobre si mesma.
Muitos profissionais interpretam a dívida como uma prova de fracasso moral. Sentem vergonha de admitir que perderam o controle, mesmo quando o problema nasceu de desemprego, doença, separação, cuidado com familiares, inflação ou redução inesperada da renda.
A vergonha transforma um problema compartilhado por milhões de brasileiros em um segredo individual.
E todo segredo pesado demais cobra juros emocionais.
Por outro lado, também seria simplista retirar completamente a responsabilidade individual. Há escolhas impulsivas, consumo usado como compensação, ausência de planejamento e dificuldade de tolerar limites. A educação financeira é necessária e pode ampliar a capacidade de decisão. Na pesquisa da Serasa, 76% dos participantes afirmaram acreditar que ela pode contribuir para a melhora da saúde mental.
Contudo, educação financeira não pode se transformar em sermão dirigido a quem ganha pouco.
Não se organiza com uma planilha aquilo que a renda não alcança.
Ensinar alguém a controlar despesas é importante. Fingir que toda dificuldade financeira decorre de falta de disciplina é uma crueldade cuidadosamente embrulhada em linguagem motivacional.
Essa mesma lógica aparece dentro das empresas.
Em setembro, muitas organizações vestem amarelo, promovem palestras sobre saúde mental e incentivam seus profissionais a pedir ajuda. São iniciativas válidas. O problema começa quando o discurso sobre cuidado não encontra correspondência na estrutura cotidiana do trabalho.
Não há campanha de saúde emocional capaz de compensar indefinidamente salários incompatíveis com as responsabilidades, metas inalcançáveis, ausência de transparência, sobrecarga contínua ou medo permanente de demissão.
Também não basta oferecer meditação a quem está perdendo o sono porque não sabe se conseguirá pagar o aluguel.
Isso não significa que a empresa seja responsável por todas as decisões financeiras ou por todos os problemas pessoais de seus trabalhadores. Nenhuma organização pode assumir o lugar do Estado, da família, da rede de saúde ou da responsabilidade individual.
Mas ela é responsável pelas condições de trabalho que cria.
É responsável pela clareza de sua política salarial, pela coerência entre cobrança e remuneração, pela previsibilidade de suas decisões, pela forma como comunica mudanças e pela segurança psicológica que oferece às pessoas.
Há uma diferença profunda entre dizer “cuide de sua saúde mental” e construir um ambiente que não adoeça silenciosamente quem trabalha nele.
A saúde financeira também precisa entrar nas conversas sobre riscos psicossociais. Não para que a empresa invada a intimidade do empregado, mas para que compreenda que remuneração, estabilidade, benefícios, jornada e práticas de gestão têm efeitos que ultrapassam os limites do escritório.
Um colaborador endividado não deixa suas preocupações na catraca. Ele as leva para a reunião, para o atendimento ao cliente, para a operação de uma máquina e para as decisões que toma ao longo do dia.
A mente preocupada perde parte de sua capacidade de imaginar o futuro. Ela se concentra no perigo imediato. O pensamento se estreita. Tudo passa a ser urgente porque o amanhã deixou de parecer seguro.
Talvez essa seja uma das maiores contradições do nosso tempo. Nunca falamos tanto em planejamento de carreira, propósito, protagonismo e alta performance, mas uma parcela imensa das pessoas está apenas tentando atravessar o mês.
Pedimos visão de longo prazo a quem vive cercado por vencimentos de curto prazo.
Pedimos inovação a quem tem medo.
Pedimos engajamento a quem está cansado de sobreviver.
O trabalho continua sendo uma das mais importantes formas de inserção social, autonomia e construção de identidade. Ter emprego importa. Ter renda importa. Os resultados recentes do mercado de trabalho brasileiro são positivos e não devem ser desprezados.
Mas um bom indicador econômico não encerra a discussão. Ele apenas abre uma nova pergunta.
Que tipo de vida está sendo possível construir com o trabalho disponível?
Talvez o verdadeiro desenvolvimento não possa ser medido somente pela quantidade de empregos criados, mas também pela capacidade desses empregos de devolver às pessoas alguma perspectiva de futuro.
O salário precisa pagar as contas. Mas o trabalho digno deveria oferecer algo além: a possibilidade de repousar sem medo, escolher sem desespero e olhar para o amanhã sem sentir que ele já chegou cobrando.
Porque uma sociedade não está verdadeiramente prosperando quando trabalha cada vez mais, produz cada vez mais e, ainda assim, passa a madrugada fazendo contas.
O emprego que estamos criando produz apenas ocupação ou também produz segurança?
E quanto da nossa saúde emocional estamos entregando todos os meses para conseguir pagar a próxima fatura?
Fontes consultadas
Ministério do Trabalho e Emprego: Novo Caged de julho de 2026
Serasa: pesquisa sobre problemas financeiros e saúde mental
https://www.serasa.com.br/imprensa/serasa-pesquisa-problemas-financeiros-saude-mental
Serasa: Mapa da Inadimplência de agosto de 2026
Ipea: rendimentos do trabalho no segundo trimestre de 2026
https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/category/mercado-de-trabalho
Obrigada por chegar aqui, e até breve!
Fabiana Santiago