O Sete de Setembro convida o Brasil a olhar além da soberania nacional e a confrontar os limites da autonomia na política, no trabalho e na vida cotidiana.
Todo Sete de Setembro, o Brasil volta a uma cena que aprendeu a reconhecer como origem: às margens do Ipiranga, um príncipe, um rompimento, uma promessa de futuro. A força dessa imagem atravessa gerações, organiza a memória nacional e nos oferece um vocabulário comum de pertencimento. Mas uma comemoração também pode se tornar uma maneira de evitar perguntas. Ao repetir que somos um país independente, corremos o risco de tratar a liberdade como assunto encerrado. A data merece uma interrogação mais exigente: o que a independência de uma nação permite que seus habitantes façam, escolham e sejam?
A história impede respostas confortáveis. A ruptura política de 1822 não aboliu a escravidão, que permaneceria legalmente no país até 1888. A formação do Estado independente conviveu, portanto, com a negação radical da liberdade de pessoas escravizadas. Tampouco o processo de independência cabe inteiro no episódio do Ipiranga: conflitos regionais e participação popular, como na Bahia, revelam uma construção mais extensa e disputada. Reconhecer essas contradições não diminui a importância da emancipação política. Permite compreender o que ela realizou e aquilo que deixou por fazer. Arquivo Nacional, Senado Federal.
A escravidão representou uma negação radical da condição humana, sustentada pela transformação de pessoas em propriedade e pela violência sistemática. Sua permanência depois da independência expõe uma contradição fundadora: a liberdade podia ser anunciada em nome de uma coletividade e negada a uma parcela dela. Essa distância entre a celebração pública e a experiência concreta permanece uma chave de leitura para o presente. Uma sociedade precisa avaliar suas conquistas também pela vida de quem ainda encontra obstáculos para usufruí-las.
A palavra liberdade ganha precisão quando perguntamos de que estamos livres e quais possibilidades efetivamente temos. A ausência de proibição é indispensável, mas não esgota o problema. Quem pode estudar legalmente, porém não dispõe de tempo, transporte ou condições de permanência, enfrenta uma escolha muito diferente daquela de quem encontra todos esses recursos disponíveis. Quem tem autorização para buscar outro emprego, mas sustenta sozinho uma família e não possui reserva financeira, calcula riscos que o discurso da reinvenção raramente considera. O direito existe; a capacidade de exercê-lo encontra limites.
A Constituição de 1988 oferece uma referência para essa discussão ao reunir garantias de liberdade, igualdade, manifestação do pensamento, consciência e crença com direitos sociais, como educação, saúde, trabalho e moradia. Também associa, entre os fundamentos da República, a dignidade humana aos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Essa arquitetura constitucional permite pensar a autonomia como uma questão que envolve proteção contra o arbítrio e condições de vida. A efetivação dessas garantias é o desafio político e institucional que se apresenta depois da sua inscrição no texto. Constituição Federal, arts. 1º, 5º e 6º.
Reconhecer condicionantes sociais exige cuidado para não retirar das pessoas a capacidade de agir. Escolhas, esforço, disciplina e responsabilidade têm consequências reais. Também seria injusto reduzir toda trajetória a uma reprodução inevitável das circunstâncias de origem. O problema começa quando transformamos histórias de superação em prova de que qualquer pessoa poderia obter o mesmo resultado, bastando querer. Uma exceção admirável não explica, sozinha, o funcionamento de uma sociedade. Valorizar o mérito pede atenção às oportunidades de demonstrá-lo, aos critérios de reconhecimento e aos obstáculos que tornam o caminho mais longo para alguns.
É quando essa discussão chega ao trabalho que ela se torna especialmente próxima daquilo que me interessa como consultora de carreira e psicanalista: o espaço que uma pessoa encontra para existir dentro das relações de poder. No mundo profissional, a distância entre o discurso e a experiência aparece com nitidez. Empresas anunciam autonomia, protagonismo e pensamento crítico, mas essas palavras só adquirem conteúdo quando alcançam as decisões cotidianas. Um trabalhador pode discordar de uma meta sem ser tratado como desleal? Pode apontar um erro do superior sem comprometer sua trajetória? Tem acesso às informações necessárias para decidir? Recebe recursos compatíveis com a responsabilidade que lhe foi atribuída? A liberdade organizacional se revela nessas situações, sobretudo quando a contribuição de alguém contraria o interesse imediato de quem detém poder.
É fácil elogiar o pensamento crítico enquanto ninguém questiona a nossa decisão.
Há uma diferença decisiva entre delegar autoridade e transferir problemas. Entregar uma tarefa complexa sem orçamento, equipe, informação ou possibilidade de negociação, exigindo que o profissional “seja dono”, pode apenas deslocar para ele o custo de uma decisão tomada em outro lugar. A autonomia precisa vir acompanhada de condições, limites claros e critérios de avaliação conhecidos. Do contrário, a linguagem da confiança encobre uma relação na qual a pessoa responde pelos resultados, enquanto permanece impedida de influenciar os fatores que os determinam.
A flexibilidade também precisa ser examinada a partir de seus efeitos. Poder organizar horários e trabalhar de diferentes lugares pode ampliar a liberdade. Entretanto, quando a possibilidade de conexão se converte em expectativa permanente de disponibilidade, o benefício perde parte do sentido. O celular acompanha o jantar, o descanso e o domingo; o receio de parecer pouco comprometido antecipa uma cobrança que às vezes nem precisa ser formulada. Nesse cenário, a gestão deve observar se a flexibilidade oferece controle sobre o tempo ou apenas torna mais difícil identificar onde o trabalho termina.
A vida fora da empresa participa dessa equação. O levantamento do IBGE referente a 2022 mostrou que as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais aos cuidados de pessoas e aos afazeres domésticos, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas. Embora se refira a um período anterior, o levantamento oferece uma referência concreta para discutir a relação entre divisão do cuidado e disponibilidade profissional. Horas comprometidas com o cuidado afetam o tempo possível para estudar, descansar, aceitar viagens e disputar oportunidades. IBGE, As mulheres do Brasil.
Quando a organização avalia carreiras como se todos tivessem a mesma retaguarda doméstica, pode premiar condições de disponibilidade como se fossem exclusivamente competência ou dedicação. Essa discussão não se resolve desvalorizando o cuidado, indispensável à vida coletiva. Ela exige reconhecer seu valor e discutir como suas responsabilidades são compartilhadas entre famílias, homens e mulheres, empresas e poder público. A autonomia de quem trabalha depende também de quem cuida das crianças, acompanha os idosos e sustenta a rotina que torna o trabalho remunerado possível.
Empreender merece o mesmo exame. Abrir um negócio pode representar realização, criatividade e independência econômica. Pode também ser uma resposta à falta de alternativas, acompanhada de renda incerta e jornadas extensas. A condição jurídica de empresário não informa, por si só, o grau de controle que alguém possui sobre o próprio trabalho. Dependência de um único cliente, dificuldade de acesso a crédito e incapacidade de negociar preços podem restringir escolhas. Uma defesa consistente da livre iniciativa precisa se interessar pelas condições de entrada, permanência e concorrência, inclusive para os pequenos.
Talvez uma das perguntas mais difíceis dessa discussão seja aquela que fazemos a nós mesmos: quanto da vida que estamos construindo ainda corresponde ao que desejamos? Há uma dimensão íntima da liberdade, que não substitui a análise social, mas a torna mais complexa. Podemos dispor de alternativas e, mesmo assim, sentir que não temos autorização para escolhê-las. A necessidade de aprovação, o medo de decepcionar e a obrigação de corresponder a expectativas podem estreitar a vida. Em uma leitura psicanalítica, cabe investigar como a história dos vínculos participa dessas repetições. Essa investigação não autoriza presumir que toda dificuldade profissional tenha origem emocional, nem que uma mudança subjetiva elimine obstáculos econômicos. Ela abre espaço para distinguir o limite externo da exigência que aprendemos a impor a nós mesmos.
Uma promoção pode ser desejada pelo trabalho que oferece ou pela esperança de finalmente obter reconhecimento. Uma carreira pode expressar interesse próprio ou funcionar como continuidade de uma expectativa familiar nunca examinada. Essas possibilidades não são mutuamente exclusivas. Nossos desejos se formam nas relações e carregam influências; liberdade não exige inventar uma identidade sem passado. Exige poder interrogar esse passado, reconhecer compromissos e avaliar quais escolhas ainda fazem sentido. Às vezes, a decisão mais autônoma será mudar. Em outras, será permanecer por razões que agora conseguimos nomear.
Em O medo à liberdade, publicado originalmente em 1941, Erich Fromm examinou como a conquista de independência pode conviver com isolamento e insegurança, favorecendo a procura por novas formas de submissão autoritária. Sua reflexão ajuda a compreender por que decidir por conta própria também pode assustar. A promessa de alguém que sabe todas as respostas oferece alívio diante da incerteza. O preço desse alívio aparece quando o pertencimento passa a exigir a renúncia ao julgamento. Erich Fromm, Escape from Freedom.
Nem toda obediência começa com uma ordem. Algumas começam com o medo de deixar de pertencer.
Essa é uma questão que ultrapassa a política partidária. Uma equipe, uma comunidade religiosa, uma família ou um grupo intelectual podem acolher o indivíduo e ampliar sua visão de mundo. Podem igualmente tornar a concordância obrigatória. O ponto crítico está na possibilidade de perguntar, divergir e revisar posições sem que o vínculo seja convertido em instrumento de punição. Pertencer é uma necessidade humana legítima. Preservar a capacidade de pensar dentro dos vínculos é uma tarefa da liberdade.
No debate público, essa tarefa exige coerência. Defender a expressão apenas de quem confirma nossas convicções reduz um princípio a uma conveniência. Uma cultura democrática precisa suportar opiniões impopulares, críticas contundentes e o desconforto de ser contestada. Também precisa distinguir divergência de ameaça e responsabilização de perseguição. Restrições à expressão demandam fundamento jurídico, controle e possibilidade de contestação; a invocação genérica da proteção social não deve funcionar como autorização para silenciar adversários. Pela mesma razão, a defesa da liberdade não pode servir de justificativa automática para qualquer dano causado a terceiros.
A maturidade desse debate depende de instituições e de hábitos. Leis têm importância decisiva, mas não substituem a disposição de ouvir uma pergunta difícil, corrigir uma informação ou reconhecer um erro cometido pelo próprio grupo. Quando a fidelidade política passa a exigir tolerância com aquilo que condenamos nos outros, entregamos parte de nossa autonomia moral. A coerência começa quando o critério sobrevive à troca de nomes, partidos e posições de poder. É nesse ponto que a liberdade de pensamento deixa de ser declaração e se torna prática.
O ambiente digital acrescenta outra camada ao problema. A abundância de mensagens pode produzir a sensação de acesso irrestrito ao mundo, mesmo quando nossa atenção se concentra em recortes estreitos. A seleção do que vemos, os incentivos à reação imediata e a busca por aprovação merecem ser examinados como parte da formação das opiniões. Não é necessário imaginar pessoas sem vontade própria diante da tecnologia. Basta reconhecer que nossas escolhas acontecem em ambientes organizados por interesses e que, por isso, conhecer a origem de uma informação e tolerar a pausa antes de compartilhá-la são formas de exercer autonomia.
A própria ideia de independência merece ser protegida de uma interpretação empobrecida: a de que ser livre significa não precisar de ninguém. Nenhuma carreira se constrói sem aprendizagem, confiança, infraestrutura e cooperação. Nenhuma sociedade preserva direitos apenas pela soma de vontades isoladas. Relações de interdependência podem ampliar a liberdade quando permitem reciprocidade e negociação; tornam-se opressivas quando a necessidade de uma parte é utilizada pela outra como instrumento de domínio. O objetivo ético é construir vínculos nos quais depender não signifique perder dignidade ou voz.
Por isso, autoridade e compromisso não são incompatíveis com a liberdade. Uma empresa precisa de direção, uma profissão exige padrões e a convivência requer limites. A questão é como essa autoridade se legitima, presta contas e admite correção. Da mesma forma, escolher envolve renúncias e deveres. Cumprir um acordo, aceitar uma crítica fundamentada e responder pelas consequências de uma decisão fazem parte da autonomia. Uma liberdade incapaz de reconhecer obrigações acabaria transferindo aos outros o custo permanente dos nossos desejos.
Por isso, entendo que falar de liberdade em uma publicação sobre vida profissional implica fazer perguntas também a quem contrata, avalia, promove e demite. Levar essa reflexão à gestão exige rever o que efetivamente se recompensa. Se a organização elogia a coragem, mas promove apenas quem concorda, sua mensagem real já foi transmitida. Se declara valorizar a vida pessoal, mas trata o descanso como falta de ambição, o discurso institucional perde credibilidade. Uma liderança comprometida com a autonomia torna critérios visíveis, acolhe alertas, distribui autoridade e enfrenta comportamentos abusivos mesmo quando partem de profissionais que entregam bons resultados. A liberdade ganha consistência quando altera a maneira de exercer poder.
No plano coletivo, o mesmo compromisso envolve defender instituições contra o arbítrio, exigir qualidade dos serviços públicos, ampliar oportunidades de formação e proteger a possibilidade de participação. Essas escolhas não eliminam todos os conflitos nem dispensam o debate sobre custos e prioridades. Tornam esse debate mais responsável, porque obrigam a perguntar quem ganha capacidade de agir e quem continua pagando o preço das decisões. Uma política orientada à liberdade precisa ser avaliada pelos seus efeitos, inclusive quando seus resultados contrariam a intenção anunciada.
O Sete de Setembro pode, assim, recuperar uma função que ultrapassa o rito. Honrar uma conquista histórica inclui examinar suas insuficiências e assumir a responsabilidade de continuá-la. O país que herdamos foi construído por gerações cujos esforços, conflitos e realizações merecem memória. Essa herança também contém exclusões que exigem crítica. A maturidade nacional está em sustentar as duas coisas: gratidão pelo que tornou a vida possível e compromisso com aquilo que ainda precisa mudar.
A independência política tem uma data de celebração. A liberdade se verifica todos os dias: na possibilidade de discordar, na oportunidade de aprender, na segurança para recusar uma humilhação, no tempo para cuidar e na responsabilidade de conviver. É ali, distante dos palanques e dentro da vida comum, que a promessa precisa encontrar consequência. Quando os desfiles terminarem e as bandeiras forem recolhidas, continuaremos diante de pessoas cujas escolhas podemos ampliar ou restringir. É nessa convivência que cada um de nós responderá pelo sentido que atribui à liberdade.
Agora me conte: em sua trajetória, você encontrou espaço para pensar e decidir ou aprendeu que, para pertencer, precisava concordar? E, quando ocupa uma posição de liderança, que liberdade oferece a quem trabalha com você?
Obrigada por chegar aqui, e até breve!Fabiana Santiago