Quando as lojas fecham, para onde vão os trabalhadores?

O varejo brasileiro eliminou quase 46 mil empregos no primeiro semestre de 2026, justamente quando o país continuava criando vagas. O número pode parecer apenas mais um indicador econômico, mas revela uma transformação muito maior: o trabalho está mudando antes que parte dos trabalhadores tenha tempo de mudar com ele.

Durante muito tempo, o comércio foi uma das grandes portas de entrada para o mercado de trabalho brasileiro. Foi atrás de um balcão, diante de um caixa ou organizando mercadorias em uma loja que milhões de pessoas conquistaram o primeiro emprego, aprenderam a lidar com clientes, desenvolveram habilidades de negociação e construíram suas trajetórias profissionais. Lembro-me como hoje, quando completei 18 anos, já iniciei meu trabalho em uma grande marca de calçados. Passei por confecção feminina, móveis & decoração e eletrônicos, até terminar a primeira graduação. O varejo sempre teve essa característica democrática: absorvia jovens sem experiência, trabalhadores maduros em busca de recolocação e profissionais que, mesmo sem uma formação acadêmica sofisticada, conseguiam construir carreiras sólidas por meio da experiência.

É justamente por isso que um dado recente merece mais atenção do que recebeu. No primeiro semestre de 2026, o comércio varejista brasileiro eliminou aproximadamente 45,9 mil postos de trabalho formais. O movimento chama atenção porque aconteceu na contramão do mercado de trabalho nacional. No mesmo período, o Brasil criou mais de 921 mil empregos com carteira assinada. Não estamos, portanto, diante de uma retração generalizada do emprego. Estamos diante de algo mais complexo: enquanto algumas atividades continuam contratando, outras começam a descobrir que conseguem crescer, vender e operar com estruturas humanas menores.

Os segmentos de vestuário e acessórios aparecem entre os mais afetados, com cerca de 30,9 mil vagas eliminadas, seguidos pelo comércio de calçados, que perdeu aproximadamente 11,3 mil postos. Há razões conjunturais importantes para isso. O crédito caro diminui o consumo, o endividamento das famílias compromete a renda disponível, as empresas convivem com custos elevados e as margens do varejo são historicamente apertadas. Seria confortável atribuir a retração apenas ao cenário econômico. O problema é que essa explicação, embora verdadeira, parece insuficiente.

Há uma mudança estrutural acontecendo diante de nós.

Basta observar como comprávamos há quinze ou vinte anos e comparar com o comportamento atual. Entrávamos em uma loja, conversávamos com um vendedor, experimentávamos produtos, comparávamos algumas opções e realizávamos a compra. Hoje, uma parcela crescente dessa jornada acontece diante de uma tela. O consumidor pesquisa preços em segundos, consulta avaliações de desconhecidos, compara dezenas de lojas, conversa com sistemas automatizados, compra por aplicativos e recebe o produto sem jamais ter entrado no estabelecimento que realizou a venda.

O comércio não está desaparecendo. Ao contrário, continuamos consumindo. O que está mudando é a infraestrutura necessária para fazer o produto chegar até nós.

Por trás de uma compra digital surgiram outras ocupações e ganharam importância profissionais de tecnologia, logística, análise de dados, marketing digital, gestão de marketplaces, meios de pagamento, segurança da informação e centros de distribuição. O emprego, portanto, não desaparece simplesmente; parte dele migra. O problema social começa quando percebemos que essa migração não acontece na mesma velocidade para o trabalhador.

Um vendedor com vinte anos de experiência não se transforma automaticamente em analista de dados porque a empresa decidiu digitalizar suas operações. Uma operadora de caixa não se torna especialista em comércio eletrônico no dia seguinte à instalação de um sistema de autoatendimento. Um gerente de loja não adquire competências em inteligência artificial apenas porque a organização incorporou novas tecnologias ao negócio.

Existe um intervalo entre a transformação das empresas e a transformação das pessoas. E é nesse intervalo que muitos empregos podem desaparecer.

Talvez este seja um dos grandes dilemas do mercado de trabalho desta década. A tecnologia avança em velocidade exponencial, enquanto a formação profissional continua acontecendo em ritmo humano. Empresas conseguem instalar sistemas em meses. Trabalhadores levam anos para construir repertório, experiência e identidade profissional.

Há ainda uma dimensão sobre a qual pouco falamos. Perder uma ocupação não significa apenas perder renda. O trabalho ocupa um lugar importante na construção da identidade adulta. Quando alguém passa vinte ou trinta anos dizendo “sou vendedor”, “sou gerente”, “sou bancário”, “sou operador”, essa profissão deixa de representar apenas aquilo que a pessoa faz durante oito horas por dia. Ela passa a fazer parte da maneira como essa pessoa se apresenta ao mundo e, muitas vezes, da maneira como enxerga a si mesma.

Por isso, as grandes transformações profissionais carregam também pequenos lutos silenciosos. Quando uma profissão perde espaço, o trabalhador precisa não apenas aprender outra atividade, mas reconstruir parte da própria identidade.

É justamente aqui que a discussão deixa de ser exclusivamente econômica e passa a ser uma discussão sobre liderança.

Durante décadas, as empresas trataram treinamento como ferramenta para aumentar desempenho. Treinava-se alguém porque era necessário vender mais, produzir melhor, reduzir erros ou assumir uma posição superior. A transformação tecnológica exigirá uma mudança nessa lógica. Desenvolvimento profissional também precisará funcionar como instrumento de preservação da empregabilidade.

As organizações normalmente sabem antes dos empregados quais funções estão diminuindo. Conhecem os projetos de automação, acompanham os investimentos tecnológicos, sabem quais departamentos serão reorganizados e conseguem estimar quais competências serão necessárias nos próximos anos. Existe, portanto, uma assimetria de informação importante: muitas vezes, a empresa consegue enxergar o fim de determinada função muito antes de quem a ocupa.

É razoável perguntar qual responsabilidade as lideranças devem assumir diante disso.

Não se trata de defender que empresas sejam responsáveis por garantir empregos eternamente. Nenhuma organização sobrevive ignorando produtividade, competitividade ou inovação. Também seria ingênuo imaginar que devemos preservar funções apenas porque elas existiram durante décadas. A história econômica sempre foi marcada pelo desaparecimento de algumas profissões e pelo nascimento de outras.

A questão é outra.

Se uma organização sabe que determinada atividade será profundamente reduzida nos próximos três anos, deveria esperar o momento do desligamento para conversar com aquele trabalhador sobre seu futuro? Talvez estejamos chegando ao momento em que empregabilidade precisará fazer parte da responsabilidade da liderança enquanto o profissional ainda está empregado.

Isso significa identificar competências transferíveis, oferecer formação, promover mobilidade interna e preparar pessoas para funções que ainda estão surgindo. Significa também abandonar a ideia confortável de que cursos genéricos ou uma plataforma de treinamento disponível na intranet são suficientes para chamar uma empresa de “organização que desenvolve pessoas”.

Ao trabalhador cabe uma responsabilidade igualmente importante. Experiência profissional continua sendo patrimônio valioso, mas não pode transformar-se em esconderijo. Há profissionais extremamente competentes que continuam repetindo aquilo que aprenderam há quinze anos, acreditando que o domínio do passado será suficiente para garantir o futuro. Talvez não seja.

A pergunta que todos deveríamos fazer periodicamente é incômoda, mas necessária: se minha profissão mudar radicalmente nos próximos cinco anos, o que eu sei fazer continuará tendo valor?

A inteligência artificial tornou essa reflexão ainda mais urgente. Durante algum tempo, imaginamos que a automação atingiria principalmente atividades operacionais e repetitivas. Hoje sabemos que sistemas inteligentes também escrevem, analisam documentos, produzem imagens, organizam informações, atendem clientes, auxiliam decisões e executam tarefas que até recentemente pertenciam exclusivamente ao chamado trabalho intelectual.

Isso não significa que milhões de profissionais serão simplesmente descartados. Significa que provavelmente haverá uma redistribuição profunda do valor das competências humanas. Capacidade de julgamento, relacionamento, criatividade, negociação, leitura de contexto, liderança e pensamento crítico tendem a ganhar importância justamente porque convivem com ferramentas capazes de executar cada vez mais tarefas técnicas.

Nesse sentido, os quase 46 mil empregos perdidos no varejo talvez sejam mais do que uma fotografia econômica de 2026. Podem ser um pequeno retrato antecipado de uma transformação que chegará a inúmeras outras profissões.

Quando olhamos apenas para a estatística, enxergamos vagas eliminadas. Quando olhamos para o fenômeno como líderes, precisamos enxergar pessoas atravessando uma mudança para a qual talvez ninguém as tenha preparado.

O futuro do trabalho certamente terá mais tecnologia. Provavelmente terá empresas mais enxutas, processos mais automatizados e novas profissões que ainda estamos aprendendo a nomear. Nada disso precisa ser tratado como tragédia. A humanidade sempre transformou sua maneira de trabalhar.

O que deveria nos preocupar não é a transformação em si, mas a possibilidade de construirmos empresas preparadas para o futuro deixando trabalhadores presos ao passado.

Talvez a qualidade das lideranças desta geração seja julgada justamente por isso. Não apenas pela quantidade de tecnologia que conseguiram implantar ou pelos custos que conseguiram reduzir, mas pela capacidade de conduzir pessoas durante uma das maiores transições profissionais das últimas décadas.

Porque inovação sem preparação pode produzir eficiência para a empresa e exclusão para o trabalhador. E uma liderança que pretende ser chamada de humana precisa ser capaz de olhar para as duas coisas ao mesmo tempo.

Obrigada por chegar aqui e até a próxima!

Fabiana Santiago

Picture of Fabiana Santiago

Fabiana Santiago

Fabiana Santiago é mentora de carreiras, headhunter e psicanalista clínica. Ela atua em consultório particular desde 2009, seguindo a linha freudiana e de seus sucessores. Desde 2001, Fabiana realiza trabalhos na área de recursos humanos para empresas de todos os portes e diversos segmentos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fique por dentro dessa transformação

Inscreva-se e seja o primeiro a saber sobre as últimas novidades, ofertas exclusivas e muito mais.