A ausência paterna não começa na certidão sem um nome. Ela também se manifesta dentro de casas aparentemente completas e ajuda a revelar uma das feridas mais silenciosas da estrutura familiar brasileira.
O Brasil convive há décadas com uma realidade que, embora esteja presente em milhões de famílias, ainda encontra enorme resistência para ser discutida publicamente: a ausência paterna e os efeitos produzidos por vínculos familiares marcados pelo abandono, pela negligência, pela violência ou pela indisponibilidade emocional. É um tema delicado porque atravessa aquilo que nossa cultura durante muito tempo considerou território privado. Família, aprendemos, era assunto que deveria permanecer dentro de casa. O problema é que aquilo que acontece dentro de casa não necessariamente permanece ali. A criança cresce, torna-se adulta e leva consigo as primeiras experiências de amor, rejeição, pertencimento, autoridade, segurança e abandono.
Parte dessa realidade pode ser medida. Dados do Registro Civil mostram que mais de 1,7 milhão de crianças nascidas no Brasil na última década foram registradas somente com o nome da mãe. Apenas em 2025, aproximadamente 174 mil recém-nascidos não tiveram a paternidade identificada na certidão de nascimento. O Censo Demográfico de 2022 revela outra dimensão do fenômeno: cerca de 7,8 milhões de mulheres viviam sem cônjuge e com filhos, enquanto a proporção de homens vivendo na mesma configuração era significativamente menor.
Os números, porém, contam apenas aquilo que conseguimos registrar. Existe uma ausência paterna que nenhuma estatística brasileira é capaz de dimensionar com precisão: a do pai que consta na certidão, mas não participa da vida do filho; daquele que paga pensão, mas não constrói vínculo; daquele que aparece esporadicamente; e até do homem que permanece fisicamente dentro da residência, mas é emocionalmente inacessível.
Essa talvez seja a face mais complexa da discussão. Porque nem todo filho que possui um pai presente no documento possui uma experiência de paternidade.
Família disfuncional não é um modelo de família
É necessário estabelecer uma distinção importante. Falar sobre famílias disfuncionais não significa defender que exista apenas uma configuração familiar capaz de produzir crianças emocionalmente saudáveis. Uma família monoparental não é, por definição, disfuncional. Uma mãe que cria seus filhos sozinha pode proporcionar vínculos extremamente seguros, assim como uma família composta por pai, mãe e filhos pode conviver diariamente com violência, humilhação, negligência, alcoolismo, abuso, abandono afetivo ou medo.
A disfuncionalidade não está necessariamente na composição da família. Está na dinâmica de seus vínculos.
Uma família torna-se um ambiente potencialmente adoecedor quando seus integrantes não encontram segurança emocional para existir, falar, discordar, estabelecer limites ou pedir ajuda. O problema se agrava quando determinadas condutas passam a ser normalizadas justamente porque acontecem dentro da família.
Durante gerações, expressões populares brasileiras ajudaram a consolidar essa cultura: “roupa suja se lava em casa”, “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, “não fale mal do seu pai”, “isso é problema de família”. Embora algumas dessas frases possam ter surgido da intenção de preservar relações, também contribuíram para estabelecer um pacto social de silêncio em torno de situações que jamais deveriam ter sido silenciadas.
Os dados sobre violência contra crianças tornam essa discussão ainda mais urgente. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 apontou que, entre registros de estupro e estupro de vulnerável envolvendo vítimas de até 13 anos, 59,5% dos autores eram familiares. Levantamento do UNICEF e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública também contabilizou mais de 164 mil vítimas de estupro e estupro de vulnerável entre crianças e adolescentes de 0 a 19 anos, entre 2021 e 2023.
Esses dados mostram que discutir família não significa atacar a instituição familiar. Ao contrário. Significa reconhecer que proteger a família exige também coragem para olhar para aquilo que pode adoecer dentro dela.
O que a Psicanálise pode dizer sobre essa ausência
Do ponto de vista psicanalítico, as primeiras relações constituem referências fundamentais para a maneira como o sujeito posteriormente se posicionará diante do amor, da falta, da rejeição, da autoridade e do desejo. Isso não significa estabelecer uma relação determinista entre ausência paterna e sofrimento psíquico. Seria simplista afirmar que toda criança criada sem o pai desenvolverá problemas emocionais. A constituição psíquica depende de inúmeros fatores, entre eles a qualidade dos demais vínculos, a presença de figuras cuidadoras, as condições sociais e econômicas e as experiências construídas ao longo da vida.
Entretanto, também seria ingênuo afirmar que experiências precoces de abandono são emocionalmente neutras.
A criança pequena não possui os mesmos recursos de elaboração de um adulto. Quando um pai desaparece, ela dificilmente compreenderá aquela ausência a partir das dificuldades emocionais, conjugais ou pessoais daquele homem. Existe o risco de que construa uma interpretação centrada em si própria: se ele não permaneceu, talvez eu não tenha sido suficientemente importante para que permanecesse.
É nesse espaço que podem se instalar sentimentos de rejeição, desvalor ou medo de abandono. Na vida adulta, dependendo de muitos outros fatores, essas experiências podem reaparecer na forma como o sujeito estabelece seus relacionamentos. Algumas pessoas passam anos buscando reconhecimento excessivo, tolerando relações precárias ou tentando transformar pessoas emocionalmente indisponíveis em parceiros capazes de finalmente escolhê-las.
A Psicanálise conhece a força da repetição. Não repetimos necessariamente porque desejamos novamente a dor, mas, em alguns casos, porque existe psiquicamente a tentativa de encontrar um desfecho diferente para uma história que permaneceu aberta.
Por isso, a discussão sobre paternidade precisa ultrapassar a presença biológica. A chamada função paterna, na tradição psicanalítica, possui dimensão simbólica relacionada à introdução do limite, da alteridade e da compreensão de que o mundo possui regras e que o desejo encontra fronteiras. Essa função não precisa necessariamente coincidir com o pai biológico e pode ser sustentada por outras figuras significativas.
O ponto central não é defender uma fotografia familiar específica. É defender a necessidade de vínculos adultos responsáveis e suficientemente seguros para o desenvolvimento de uma criança.
A mãe que ficou e o pai sobre quem pouco perguntamos
Há ainda uma desigualdade cultural que merece atenção. Historicamente, produzimos um enorme repertório de julgamentos sobre a maternidade. Questionamos a mãe que trabalha demais, a mãe que protege demais, a mãe que se ausenta, a mãe que não percebe, a mãe que não acolhe. Sobre a mãe construímos teorias, expectativas e culpas.
A ausência masculina, entretanto, foi frequentemente naturalizada.
“Ele não leva jeito para criança.” “Homem é assim mesmo.” “Pelo menos paga pensão.”
Essas frases parecem banais, mas revelam uma diferença profunda nas expectativas sociais relacionadas à parentalidade. Também romantizamos a mulher que assumiu tudo sozinha. Chamamos de “guerreira”, elogiamos aquela que “foi mãe e pai” e transformamos sua sobrecarga em símbolo de força. Reconhecer a enorme capacidade dessas mulheres é justo. O que não podemos fazer é permitir que a admiração esconda a pergunta fundamental: por que tantas precisaram assumir sozinhas responsabilidades que deveriam ter sido compartilhadas?
O fim de um relacionamento conjugal não pode significar o fim da parentalidade. Um homem pode deixar de ser marido ou companheiro daquela mulher. Pode construir outro relacionamento e reorganizar completamente sua vida afetiva. Mas continuará sendo pai.
Casamentos podem terminar. Paternidades não.
Quando o Direito encontra seu limite
O ordenamento jurídico brasileiro possui instrumentos para reconhecimento de paternidade, prestação de alimentos, convivência familiar, sucessão e proteção dos direitos da criança. O Conselho Nacional de Justiça desenvolveu iniciativas como o programa Pai Presente, destinado a facilitar o reconhecimento paterno.
São avanços importantes. O reconhecimento da filiação não é apenas uma questão simbólica: produz efeitos relacionados à identidade, aos alimentos, à herança e a outros direitos. Entretanto, existe um limite evidente para aquilo que o Direito consegue alcançar. O Estado pode obrigar um pai a contribuir financeiramente para a criação do filho. Pode reconhecer juridicamente a filiação e estabelecer regras de convivência. Pode responsabilizar determinados comportamentos.
Mas nenhuma decisão judicial consegue fabricar afeto. A Justiça consegue determinar obrigação. Não consegue produzir desejo de presença. É justamente nesse ponto que a discussão deixa de ser exclusivamente jurídica e passa a ser também cultural, social e emocional.
As crianças de hoje serão os adultos de amanhã
Talvez esse seja o aspecto mais importante da discussão. A família é uma experiência privada, mas suas consequências também possuem dimensão coletiva. A criança que cresce em determinado ambiente leva consigo referências sobre confiança, amor, autoridade, conflito, limite e pertencimento. Posteriormente, essas crianças estarão nas escolas, universidades, empresas, relacionamentos e instituições. Serão profissionais, líderes, parceiros, mães e pais.
Por isso, quando uma sociedade normaliza abandono, negligência ou violência dentro das famílias, não está lidando apenas com dramas domésticos isolados. Está participando da formação emocional das próximas gerações.
Isso não significa condenar pessoas ao destino de suas infâncias. A Psicanálise existe justamente porque aquilo que foi vivido pode ser elaborado, compreendido e ressignificado. Somos atravessados por nossa história, mas não precisamos necessariamente repeti-la.
Talvez seja esse o ponto em que precisamos amadurecer como sociedade.
Não precisamos restaurar um modelo idealizado de família que, muitas vezes, jamais existiu da maneira como gostamos de recordar. Precisamos construir relações familiares nas quais os adultos compreendam que gerar uma criança estabelece uma responsabilidade que ultrapassa o relacionamento amoroso entre seus pais.
Pai não “ajuda” a mãe quando leva o filho ao médico, participa da reunião escolar ou cuida dele durante a madrugada. Não está fazendo um favor quando conversa, acompanha, protege, educa e estabelece limites.
Está simplesmente exercendo a paternidade.
Durante muito tempo perguntamos como tantas mulheres brasileiras conseguiam criar seus filhos sozinhas. Talvez tenhamos feito a pergunta errada. Precisamos começar a perguntar por que tantas tiveram de conseguir.
O Brasil órfão de pai não é apenas aquele revelado pelas certidões de nascimento nas quais existe um espaço vazio. É também o país dos pais que possuem nome, endereço e existência conhecida, mas não construíram presença; das famílias que esconderam suas dores para preservar aparências; das mulheres cuja sobrecarga foi transformada em heroísmo; e das crianças que precisaram encontrar explicações para decisões que pertenciam exclusivamente aos adultos.
Falar sobre isso incomoda porque família é memória, identidade e pertencimento. Questioná-la parece, às vezes, questionar nossa própria história. Mas talvez preservar verdadeiramente a família não seja silenciar suas feridas. Seja ter coragem de reconhecê-las para que elas não atravessem intactas a próxima geração. Um país não se torna órfão apenas quando lhe faltam pais.
Torna-se órfão quando a ausência deles deixa de nos causar estranhamento.
E talvez a pergunta que o Brasil precise fazer não seja apenas onde estão os pais que faltaram, mas que homens estamos formando hoje para que as crianças de amanhã não precisem passar a vida tentando compreender por que eles não ficaram.
Obrigada por chegar aqui e até breve,
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