A culpa é do líder? O avanço do compliance expõe a crise silenciosa da saúde mental no trabalho

Por muitos anos, o sofrimento emocional dentro das empresas foi tratado como fragilidade individual. O profissional adoecia, pedia afastamento, era substituído e a engrenagem seguia funcionando. Pouco se discutia sobre o ambiente que produzia aquele colapso. Menos ainda sobre a responsabilidade das lideranças nesse processo.

Agora, essa lógica começa a ruir.

O avanço das discussões sobre compliance corporativo, aliado às mudanças regulatórias relacionadas à saúde mental no trabalho, está obrigando empresas brasileiras a revisarem não apenas seus processos internos, mas também a forma como tratam pessoas, exercem liderança e sustentam culturas organizacionais frequentemente baseadas em pressão constante, medo e esgotamento emocional.

A pergunta que surge, ainda desconfortável para muitos conselhos administrativos, é direta: quando equipes inteiras adoecem, a culpa é apenas do trabalhador ou existe uma estrutura de liderança contribuindo silenciosamente para esse cenário?

A discussão deixou de ser subjetiva. Ela agora envolve legislação, governança corporativa, gestão de riscos e responsabilidade organizacional.

A atualização da NR-1 pelo Ministério do Trabalho e Emprego tornou obrigatório que empresas passem a incluir riscos psicossociais no gerenciamento de Segurança e Saúde do Trabalho. Isso significa que fatores como assédio moral, jornadas excessivas, pressão abusiva por metas, ambientes tóxicos, conflitos interpessoais e sobrecarga emocional passam a integrar oficialmente o radar regulatório das organizações brasileiras. (gov.br)

Na prática, o recado é inequívoco: o sofrimento emocional no trabalho não pode mais ser tratado como um problema invisível. E os números ajudam a explicar a gravidade do tema.

O Brasil registrou, apenas em 2025, mais de 530 mil afastamentos relacionados a transtornos mentais, segundo dados divulgados recentemente. Trata-se do maior índice da série histórica. (cnnbrasil.com.br)

Ao mesmo tempo, ações trabalhistas envolvendo síndrome de burnout cresceram mais de 300% na última década. (predictus.inf.br). Os dados revelam uma mudança importante de percepção social. Durante anos, o mercado romantizou a exaustão como sinônimo de comprometimento. O profissional que permanecia online até madrugada era visto como dedicado. O gestor duro e emocionalmente inacessível era chamado de forte. A sobrecarga constante era confundida com alta performance.

Mas o corpo humano cobra. E a mente também.

Do ponto de vista psicanalítico, ambientes organizacionais sustentados por medo, hipercontrole e pressão contínua produzem sujeitos em estado permanente de sobrevivência emocional. O trabalhador deixa de elaborar, refletir e criar. Passa apenas a reagir: executa tarefas., cumpre metas e entrega resultados. Mas lentamente perde saúde psíquica, identidade emocional e capacidade de conexão humana.

Talvez resida aí uma das maiores contradições do capitalismo contemporâneo: empresas defendem inovação enquanto adoecem justamente a capacidade criativa das pessoas. O problema é que o adoecimento emocional raramente nasce de um único evento extremo. Ele geralmente se constrói no cotidiano das pequenas violências normalizadas.

Isso se traduz na reunião em que alguém é exposto publicamente, na cultura permanente de urgência, na cobrança agressiva mascarada de meritocracia. O líder que utiliza medo como ferramenta de gestão, a ausência completa de segurança psicológica, oprofissional que sente culpa ao descansar. A naturalização do excesso!

A empresa que afirma valorizar pessoas enquanto destrói emocionalmente suas equipes em silêncio, nesse cenário, compliance e saúde mental deixam de ocupar departamentos distintos e passam a compartilhar o mesmo território ético. Isso reflete o conceito contemporâneo de compliance, que não se resume mais à prevenção de corrupção ou adequação normativa. Ele envolve coerência institucional. E não existe coerência em empresas que possuem códigos de ética sofisticados, mas toleram ambientes emocionalmente adoecedores.

Sejamos conscientes, não basta ter canal de denúncia se o trabalhador teme represálias, nem basta realizar campanhas sobre saúde mental enquanto líderes humilham equipes diariamente. O que adianta investir em aplicativos de meditação se a cultura organizacional continua baseada em medo e exaustão. A incoerência entre discurso e prática passou a representar um dos maiores riscos reputacionais das organizações contemporâneas. O mercado percebeu isso e os trabalhadores também.

As novas gerações passaram a avaliar empresas não apenas por remuneração, mas pela qualidade das relações humanas, segurança psicológica, flexibilidade, coerência ética e ambiente emocional. A figura do líder também começa a mudar, o gestor do futuro provavelmente não será reconhecido apenas por entregar metas agressivas ou resultados financeiros expressivos. Será reconhecido pela capacidade de sustentar ambientes produtivos sem destruir emocionalmente as pessoas no processo.

E é importante destacar que isso exige preparo, inteligência emocional, formação relacional, maturidade psicológica, e, sobretudo, exige compreensão de que liderar pessoas nunca foi apenas cobrar desempenho. Empresas que ignorarem essa transformação possivelmente enfrentarão aumento de passivos trabalhistas, turnover elevado, absenteísmo, perda de talentos e desgaste institucional cada vez mais severo nos próximos anos.

Talvez o maior desafio das organizações daqui para frente não seja crescer rapidamente, mas crescer sem adoecer quem sustenta esse crescimento todos os dias. Você acredita que as empresas brasileiras estão preparadas para responsabilizar culturas organizacionais e lideranças pelos impactos emocionais causados nas equipes?

Compartilhe este artigo com líderes, RHs e empresários que precisam participar dessa reflexão.

#Compliance #SaudeMental #Burnout #NR1 #LiderancaHumanizada

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Fabiana Santiago

Fabiana Santiago é mentora de carreiras, headhunter e psicanalista clínica. Ela atua em consultório particular desde 2009, seguindo a linha freudiana e de seus sucessores. Desde 2001, Fabiana realiza trabalhos na área de recursos humanos para empresas de todos os portes e diversos segmentos.

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