Há perguntas que atravessam o tempo e incomodam como um eco persistente: por que, em pleno 2026, ainda precisamos explicar que o corpo da mulher não é território público? Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, apenas em 2025, o Brasil registrou mais de 80 mil denúncias de estupro e milhares de ocorrências classificadas como importunação sexual. Especialistas alertam que esses números representam apenas a superfície de um problema muito mais profundo, já que estima-se que menos de 10% dos casos sejam formalmente denunciados. A tese é clara e incômoda: o assédio sexual e a importunação sexual não são apenas crimes isolados, são sintomas de uma cultura permissiva que impacta diretamente a saúde emocional, a carreira e a liberdade das mulheres.
Para compreender a dimensão do problema, é preciso distinguir conceitos que muitas vezes são banalizados no cotidiano corporativo e social. O assédio sexual, tipificado no Código Penal brasileiro, está relacionado à prática de constranger alguém com o intuito de obter vantagem sexual, geralmente em uma relação de poder ou hierarquia. Já a importunação sexual, crime mais recente na legislação, refere-se a atos libidinosos sem consentimento, como toques, abordagens invasivas ou comportamentos de cunho sexual em ambientes públicos ou privados. Segundo levantamentos de institutos como o Datafolha, cerca de 70% das mulheres brasileiras já vivenciaram algum tipo de assédio ao longo da vida. No ambiente de trabalho, pesquisas da Organização Internacional do Trabalho apontam que quase 1 em cada 3 mulheres já sofreu assédio sexual em contexto profissional.

Mas os números, por si só, não contam a história completa. O impacto emocional dessas experiências é profundo, silencioso e, muitas vezes, cumulativo. Mulheres que vivenciam situações de assédio relatam aumento significativo de ansiedade, crises de pânico, perda de autoestima e, em casos mais severos, sintomas compatíveis com transtorno de estresse pós-traumático. A psicanálise nos ensina que o corpo registra aquilo que a palavra não consegue elaborar. E, nesse cenário, o trauma não é apenas o ato em si, mas a repetição simbólica do desrespeito, da invalidação e do medo.
No ambiente corporativo, os efeitos se desdobram de forma ainda mais complexa. Dados da consultoria McKinsey indicam que mulheres que sofrem assédio têm até 3 vezes mais chances de pedir desligamento voluntário. Além disso, há queda de produtividade, dificuldade de concentração e retração na participação em espaços de liderança. Em outras palavras, o assédio não afeta apenas a mulher, ele corrói a inteligência coletiva das organizações. Empresas que negligenciam esse tema não estão apenas falhando eticamente, estão comprometendo seus resultados de longo prazo.

E aqui surge um ponto que precisa ser dito com clareza: o problema não está na mulher que “interpretou errado”, como ainda se ouve em corredores corporativos. O problema está na cultura que normaliza piadas, olhares, comentários e abordagens que ultrapassam limites. Como bem coloca a pesquisadora americana Kimberlé Crenshaw, ao discutir interseccionalidade, a violência contra a mulher é estrutural e se manifesta de formas diversas dependendo do contexto social e organizacional.
Por outro lado, há avanços importantes. A criação de canais de denúncia mais seguros, o fortalecimento de políticas de compliance e a ampliação do debate público têm incentivado mais mulheres a se posicionarem. Ferramentas como treinamentos obrigatórios de conduta, programas de escuta ativa e diagnósticos de risco psicossocial, alinhados à NR-1, vêm se tornando diferenciais estratégicos para empresas que desejam ambientes mais seguros e sustentáveis. Ainda assim, o desafio permanece: transformar discurso em prática.

É preciso reconhecer que combater o assédio não é apenas uma questão jurídica, é uma questão cultural. Exige liderança consciente, exige posicionamento claro e, sobretudo, exige coragem institucional para romper com padrões antigos. Durante muito tempo, ensinou-se às mulheres a se protegerem. Talvez tenha chegado o momento de ensinar às organizações a não violentarem.
A síntese que se impõe é direta: o assédio sexual e a importunação sexual são fenômenos que ultrapassam o indivíduo e revelam a maturidade de uma sociedade. Seus efeitos emocionais não são colaterais, são centrais. E ignorá-los é perpetuar um ciclo de adoecimento silencioso. O futuro do trabalho, tão discutido, passa inevitavelmente por ambientes emocionalmente seguros. E isso não é tendência. É responsabilidade.
E agora, uma reflexão que não pode ser evitada: na sua organização, o combate ao assédio é uma política viva ou apenas um documento esquecido em alguma pasta?
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Obrigada por chegar aqui e até a próxima!
Fabiana Santiago
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