Entre a urna e o caixa: como as eleições chegam à vida real

Para o empresário, a eleição pode aparecer na cotação do dólar, no custo do crédito, na decisão de contratar e na confiança para investir. Para o trabalhador, ela chega ao preço dos alimentos, à prestação da casa, à segurança do emprego, ao valor do salário e aos direitos que organizam sua relação com o trabalho. A disputa política ocupa as redes sociais, os debates e as conversas familiares. Mas seus efeitos mais profundos não ficam no campo dos discursos. Eles atravessam empresas, contratos, empregos e escolhas cotidianas.

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. A diferença levou o país a uma eleição novamente polarizada, na qual dois projetos distintos disputam não apenas a Presidência, mas também a confiança de empresários, trabalhadores e investidores. É necessário compreender essas diferenças sem transformar análise econômica em campanha eleitoral.

O mercado reage antes que a realidade mude

No primeiro pregão depois do primeiro turno, o Ibovespa ultrapassou os 200 mil pontos, o dólar caiu para menos de R$ 5 e as taxas de juros futuras recuaram. Parte do mercado interpretou o resultado como sinal favorável a uma agenda de maior contenção fiscal, redução do Estado e estímulo à iniciativa privada. Dois dias depois, houve uma correção. O dólar voltou a superar R$ 5 e a Bolsa recuou, influenciada também pelos juros americanos, pelo petróleo e pelo cenário internacional.

Essa sequência ajuda a compreender que o mercado financeiro não entrega sentenças definitivas. Ele antecipa expectativas, calcula riscos e modifica suas posições à medida que novas informações aparecem. Uma alta na Bolsa não significa que a vida de toda a população melhorou. Da mesma forma, uma queda em determinado pregão não prova que uma política econômica fracassou. O mercado é um termômetro importante, mas não mede sozinho a temperatura social de um país.

O próximo governo não começará diante de uma folha em branco

O Brasil chegou às eleições com elementos aparentemente contraditórios. A taxa de desocupação ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, um resultado positivo para o mercado de trabalho. O rendimento médio real chegou a R$ 3.777.

Ao mesmo tempo, a atividade econômica perdeu velocidade. O Banco Central informou que o crescimento do segundo trimestre foi inferior ao registrado no primeiro e projetou continuidade da desaceleração. A inflação diminuiu, mas permaneceu acima da meta, enquanto os juros elevados continuaram encarecendo o crédito.

Isso significa que o próximo presidente encontrará mais pessoas ocupadas, mas também empresas e famílias submetidas a crédito caro, endividamento e incerteza. Quem governa não escolhe apenas quais promessas deseja cumprir. Precisa decidir como financiá-las, em que ordem executá-las e quais consequências está disposto a administrar.

Dois projetos, diferentes riscos e promessas

O programa de Lula aposta em investimentos públicos, programas sociais, valorização do salário mínimo, política industrial e maior proteção nas relações de trabalho. Também defende a redução da jornada sem diminuição salarial e maior regulamentação do trabalho realizado por plataformas.

Essa orientação pode fortalecer o consumo, ampliar a proteção social e utilizar o Estado como indutor do desenvolvimento. Para trabalhadores de baixa renda, políticas de valorização salarial e acesso a serviços públicos podem produzir efeitos muito concretos.

A questão que precisa ser examinada é como essas iniciativas serão financiadas sem ampliar de maneira insustentável a dívida, a carga tributária ou a pressão sobre os juros. Quando o equilíbrio fiscal se enfraquece, os efeitos podem reaparecer na inflação, no câmbio e no custo do crédito.

O programa de Flávio Bolsonaro propõe redução da estrutura estatal, controle de despesas, diminuição de impostos e encargos, flexibilização das relações de trabalho e ampliação do espaço para a negociação entre empresas e trabalhadores. Também prevê incentivos para pequenos negócios, jovens em busca do primeiro emprego e pessoas com mais de 50 anos.

Essas medidas podem reduzir custos de contratação, estimular investimentos e facilitar a formalização. Empresas com maior liberdade para organizar contratos e jornadas podem responder com mais rapidez às mudanças do mercado.

Entretanto, a flexibilização também exige atenção aos desequilíbrios de poder presentes em uma relação de trabalho. Nem todo trabalhador possui as mesmas condições para negociar. A redução de despesas públicas, dependendo de onde ocorrer, também pode comprometer políticas e serviços dos quais milhões de pessoas dependem.

Nenhum dos projetos oferece apenas ganhos. Nenhum deles produzirá necessariamente todas as perdas previstas por seus adversários. Propostas econômicas precisam ser avaliadas pelo que pretendem fazer, pela forma como serão financiadas e pelas condições políticas necessárias para sair do papel.

Para o empresário, previsibilidade vale tanto quanto preferência política

O empresariado não é um grupo homogêneo. Uma grande companhia exportadora pode se beneficiar da variação cambial. Uma pequena empresa que compra insumos importados pode sofrer com a mesma mudança.

Uma organização com reservas financeiras consegue suportar juros elevados por mais tempo. O pequeno negócio que depende de capital de giro sente rapidamente o peso de cada ponto percentual. Para quem empreende, o impacto das eleições passará principalmente por quatro questões: custo do crédito, comportamento do consumo, estabilidade das regras e confiança para investir.

Se as famílias perdem poder de compra, as vendas diminuem. Se os juros permanecem elevados, projetos são adiados. Se as regras mudam constantemente, contratar e investir tornam-se decisões mais arriscadas. Se o governo amplia gastos sem indicar fontes sustentáveis, aumentam as preocupações com inflação e dívida.

Mas também existe outro lado. Empresas precisam de infraestrutura, segurança jurídica, trabalhadores qualificados e consumidores com renda. Um Estado financeiramente organizado e capaz de oferecer serviços públicos não é necessariamente adversário da atividade empresarial. Pode ser parte das condições que permitem seu desenvolvimento.

A discussão séria não deveria se limitar ao tamanho do Estado. Deveria perguntar onde ele precisa atuar, onde desperdiça recursos e onde sua ausência transfere custos para empresas e famílias.

Para o trabalhador, emprego não é apenas uma estatística

A redução do desemprego é uma conquista importante. Mas ter uma ocupação não encerra a discussão sobre a qualidade do trabalho. É necessário observar a renda, a jornada, a estabilidade, a proteção previdenciária, as condições emocionais e a possibilidade de construir algum projeto de vida.

Uma política que estimula contratações pode ampliar oportunidades. Porém, se os salários não acompanham o custo de vida, o trabalhador permanece vulnerável. Uma política que amplia direitos pode oferecer segurança. Mas, se elevar excessivamente o custo da contratação sem considerar as diferenças entre setores e empresas, pode dificultar novas admissões ou ampliar a informalidade.

O desafio está em construir proteção sem impedir a geração de trabalho e estimular a atividade econômica sem tratar a dignidade do trabalhador como um custo dispensável. Essa conciliação é difícil. Talvez por isso os discursos eleitorais prefiram apresentar soluções simples para problemas que nunca foram simples.

A polarização também entra nas empresas

Em períodos eleitorais, o ambiente de trabalho pode se transformar em extensão das disputas políticas. Conversas se tornam agressivas, colegas passam a ser classificados pela escolha eleitoral e algumas lideranças confundem autoridade profissional com poder para constranger opiniões.

A empresa precisa preservar o respeito, a liberdade de consciência e a segurança psicológica. O trabalhador não deve ser pressionado a declarar voto, participar de campanha ou concordar com a posição política de quem o emprega.

Da mesma forma, divergências políticas não podem justificar hostilidade, discriminação ou perda de profissionalismo. Liderar durante uma eleição significa permitir que pessoas diferentes continuem trabalhando juntas sem que o ambiente se transforme em trincheira.

O país precisa de perguntas mais difíceis

De um lado, precisamos perguntar como ampliar investimentos, proteger renda e manter políticas sociais sem perder o controle das contas públicas. Do outro, precisamos perguntar como reduzir despesas e flexibilizar contratos sem aprofundar desigualdades ou fragilizar quem possui menor poder de negociação.

Também precisamos saber como cada projeto pretende enfrentar a baixa produtividade, os juros elevados, a qualificação profissional, a transformação tecnológica e as desigualdades regionais. A eleição produz vencedores e derrotados. A economia, no entanto, não deveria ser tratada como uma disputa na qual metade do país precisa fracassar para que a outra metade se considere vitoriosa.

Empresários precisam de condições para produzir, contratar e investir. Trabalhadores precisam de renda, proteção e perspectivas. Esses interesses podem entrar em conflito, mas também dependem uns dos outros. O empresário não prospera por muito tempo em um país sem consumidores. O trabalhador não encontra segurança em uma economia sem empresas sustentáveis.

A urna decidirá quem governará. Mas não eliminará as contradições, os limites orçamentários e as responsabilidades que começam no dia seguinte. Na sua percepção, qual compromisso econômico deveria ser exigido de qualquer candidato, independentemente de sua posição política?

Obrigada por chegar aqui, até a próxima.

Fabiana Santiago

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Fabiana Santiago

Fabiana Santiago é mentora de carreiras, headhunter e psicanalista clínica. Ela atua em consultório particular desde 2009, seguindo a linha freudiana e de seus sucessores. Desde 2001, Fabiana realiza trabalhos na área de recursos humanos para empresas de todos os portes e diversos segmentos.

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