Ontem, o Brasil foi às urnas e revelou, mais uma vez, um país profundamente dividido. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos; Lula, 45,16%. A diferença entre os dois foi pequena, e a decisão sobre a Presidência seguirá para o segundo turno.
Os números mostram a força de dois campos políticos, mas não contam sozinhos toda a história. Por trás de cada voto existe uma experiência concreta: o preço dos alimentos, o medo da violência, a espera por atendimento médico, a insegurança sobre o emprego, a preocupação com os filhos e a sensação de que o futuro se tornou difícil de planejar.
A urna registra uma escolha. Mas o voto também carrega afetos, frustrações, memórias e desejos.
Ninguém vota apenas com a razão
Gostamos de pensar que escolhemos nossos candidatos depois de comparar propostas, estudar programas de governo e analisar os resultados das administrações anteriores. Evidentemente, tudo isso pode fazer parte da decisão. Entretanto, a psicanálise nos lembra que nenhuma escolha humana é construída apenas no campo racional.
Votamos também a partir de nossas identificações, temores, ressentimentos e esperanças. Procuramos, muitas vezes, alguém que represente aquilo que acreditamos ser, aquilo que desejamos voltar a ser ou aquilo que sentimos ter perdido.
Isso não significa que o eleitor seja irracional. Significa apenas que a política alcança regiões muito profundas da subjetividade humana. Um candidato pode representar proteção para alguns e ameaça para outros. A mesma palavra, mudança, ordem, justiça ou liberdade, pode despertar sentidos completamente diferentes em pessoas que vivem no mesmo país.
É importante, portanto, não transformar a psicanálise em instrumento para desqualificar quem vota de maneira diferente. Não existem milhões de eleitores “doentes” de um lado e milhões de eleitores “esclarecidos” do outro. Existem pessoas tentando interpretar a realidade a partir das experiências que viveram e das narrativas nas quais aprenderam a confiar.
A busca por alguém que ofereça proteção
Freud demonstrou que os grupos se organizam por processos de identificação e que as figuras de liderança podem ocupar simbolicamente um lugar de autoridade, proteção e idealização.
Em tempos de incerteza, essa necessidade se torna ainda mais intensa. Quando a vida cotidiana parece instável, aumenta o desejo por uma liderança capaz de oferecer respostas claras, restaurar alguma ordem e garantir que o futuro continuará existindo.
Uma parcela do eleitorado expressou desejo de ruptura, endurecimento e mudança de direção. Outra parcela reafirmou a confiança na continuidade de políticas sociais e em um projeto político conhecido. São escolhas diferentes, mas ambas podem carregar uma demanda semelhante: “Proteja aquilo que considero essencial e devolva alguma segurança à minha vida”.
É aqui que a política encontra o desamparo humano. Quando as instituições deixam de transmitir confiança, os candidatos passam a receber expectativas que nenhum indivíduo, sozinho, seria capaz de cumprir.
O eleitor está pedindo uma vida possível
Pesquisas realizadas durante o período eleitoral mostraram que segurança pública, saúde e corrupção estavam entre as principais preocupações dos brasileiros. A economia também atravessou o debate, especialmente quando traduzida em custo de vida, renda, emprego e capacidade de sustentar a família.
Os dados econômicos apresentam uma realidade complexa. O país chegou ao período eleitoral com desemprego relativamente baixo, mas também com inflação acumulada e desaceleração da atividade econômica. Isso ajuda a compreender uma aparente contradição: os indicadores podem mostrar avanços, enquanto muitas famílias continuam inseguras.
A estatística informa que alguém está empregado. Ela não revela, sozinha, se o salário chega ao fim do mês, se o trabalho é protegido, se há tempo para cuidar dos filhos ou se uma emergência médica destruirá o orçamento familiar.
O que grande parte da população espera do Brasil não é abstrato. É conseguir comprar alimentos sem medo do caixa, circular pela cidade com segurança, encontrar atendimento quando adoecer, oferecer educação de qualidade aos filhos e trabalhar sem viver permanentemente à beira do colapso.
Antes de ser ideológica, essa demanda é cotidiana.
Os que não compareceram também disseram alguma coisa
Mais de 33 milhões de eleitores não foram votar, uma abstenção de aproximadamente 21%. Não podemos atribuir uma única explicação a todas essas ausências. Há dificuldades de deslocamento, problemas pessoais, desinteresse, impedimentos concretos e decisões conscientes de não participar.
Mas um contingente dessa dimensão precisa nos fazer pensar.
O afastamento das urnas também pode expressar descrença, cansaço e a sensação de que nenhuma alternativa representa verdadeiramente a vida do eleitor. Quando a política aparece apenas como disputa, escândalo e agressividade, muitas pessoas deixam de se reconhecer nela.
A democracia também adoece quando o cidadão sente que sua presença não altera nada.
O segundo turno não deveria ser uma guerra
Quando uma sociedade se divide de maneira tão intensa, surge a tentação de transformar o adversário em inimigo. O outro deixa de ser visto como alguém com uma compreensão diferente e passa a ser tratado como ameaça moral.
Essa lógica produz pertencimento, mas cobra um preço alto: precisamos odiar juntos para continuarmos unidos ao nosso grupo.
O desafio democrático é suportar a existência do diferente sem desejar eliminá-lo simbolicamente. Isso não significa abandonar convicções, tolerar abusos ou fingir que todos os projetos são iguais. Significa reconhecer que nenhum campo político possui sozinho toda a verdade, toda a virtude ou todo o Brasil.
O segundo turno precisa discutir como serão enfrentadas a violência, a desigualdade, a precariedade dos serviços públicos, o custo de vida, a desaceleração econômica e a falta de confiança nas instituições. O eleitor necessita menos de slogans e mais de compromissos concretos.
Talvez a principal pergunta deixada pelas urnas não seja apenas quem vencerá, mas que país seremos capazes de construir depois da vitória.
Quando a eleição terminar, o Brasil continuará precisando conviver consigo mesmo.
Na sua percepção, qual necessidade do brasileiro precisa ser verdadeiramente escutada neste segundo turno?
Obrigada por chegar aqui e até a próxima!
Fabiana Santiago