Setembro Amarelo: O cuidado que a empresa promete e a rotina desmente

Setembro terminou. Muitas empresas falaram sobre saúde mental ao longo do mês, abriram espaço para palestras e lembraram seus profissionais de que pedir ajuda é importante. Essas iniciativas podem acolher quem sofre. Mas deixam uma pergunta para o dia seguinte: o que acontece quando a pessoa volta à mesma rotina que a estava desgastando?

Em 22 de setembro, a Fundacentro divulgou uma pesquisa feita com 257 jornalistas brasileiros. Entre os participantes, 50,2% apresentaram sintomas de depressão e 61,1% relataram baixo apoio social no trabalho. A amostra não representa todos os jornalistas, muito menos todas as profissões, e a pesquisa não permite atribuir cada sintoma ao emprego. Ainda assim, ela chama atenção para algo que merece ser investigado nas organizações: a relação entre as exigências do trabalho, a autonomia para realizá-lo e o apoio disponível quando surgem dificuldades. Leia a pesquisa divulgada pela Fundacentro.

O sofrimento não começa sempre onde aparece

É comum que o primeiro sinal visível seja individual. Um profissional passa a faltar, perde a concentração, se irrita com facilidade ou deixa de participar das conversas da equipe. A resposta costuma vir depressa: ele precisa descansar, procurar atendimento ou aprender a lidar melhor com a pressão.

Às vezes, precisa mesmo. O cuidado clínico tem seu lugar, e nenhuma empresa deve tentar substituir um profissional de saúde. Mas uma avaliação séria não termina na pessoa. Também pergunta como as tarefas são distribuídas, se os prazos são possíveis, se há gente suficiente para cumprir o que foi prometido e se alguém pode apontar um problema sem receio de ser punido por isso.

No dia 28 de setembro, o Conselho Federal de Enfermagem chamou atenção justamente para as condições de trabalho: jornadas longas, insegurança, baixa autonomia e pressão permanente podem produzir ou agravar o sofrimento psíquico. A notícia trata especialmente da realidade da enfermagem. Para outras áreas, ela oferece uma pergunta útil, não um diagnóstico pronto: quais aspectos da nossa forma de trabalhar precisam ser examinados? Leia a publicação do Cofen.

Ouvir exige disposição para mudar

Em mais de 25 anos trabalhando com pessoas e lideranças, vi organizações criarem canais de escuta com boa intenção e se surpreenderem quando os relatos apontavam para decisões da própria gestão. É mais confortável oferecer uma conversa sobre bem-estar do que rever uma meta. É mais simples recomendar pausas do que descobrir por que ninguém consegue fazê-las.

Uma escuta responsável precisa proteger quem fala e produzir consequências verificáveis. Se vários profissionais relatam interrupções constantes, talvez seja necessário rever reuniões e prioridades. Se a equipe diz que nunca sabe o que será considerado uma boa entrega, cabe à liderança esclarecer critérios e oferecer devolutivas regulares. Se todos dependem de uma única pessoa para decidir, o problema pode estar no desenho do processo, e não na capacidade individual de suportar pressão.

Isso também exige cuidado com os gestores. Há líderes que recebem metas, equipes reduzidas e pouca autonomia para alterar o trabalho. Cobrar deles acolhimento, sem lhes dar condições de organizar a operação, cria mais uma promessa impossível. O RH pode reunir os sinais, mas precisa ter acesso às decisões onde carga, prazo, recursos e responsabilidades são definidos.

O Ministério do Trabalho e Emprego colocou a prevenção dos riscos psicossociais no centro de sua campanha nacional de segurança e saúde no trabalho em 2026. O tema convida as empresas a examinar a organização do trabalho de forma contínua. Não se resolve com uma ação isolada no calendário. Conheça a campanha do MTE.

O que permanece depois da campanha

Uma empresa não controla tudo o que acontece na vida de seus profissionais. Pode, porém, responder pelo que organiza e pelo que escolhe ignorar dentro do trabalho. Pode perguntar se as metas continuam viáveis quando a equipe muda. Pode verificar se a mesma pessoa recebe, repetidamente, as urgências que ninguém planejou. Pode observar se o reconhecimento chega a quem sustenta a operação e se um pedido de ajuda encontra uma resposta concreta.

Para o profissional, falar sobre uma dificuldade também fica mais possível quando existem critérios claros e uma liderança capaz de ouvir sem reduzir o relato a fraqueza pessoal. Para a empresa, essa conversa pode revelar problemas antes que apareçam na saída de talentos, nos afastamentos ou na qualidade do serviço entregue.

O valor de uma palestra de setembro não termina quando as luzes se apagam. Ele aparece nas decisões tomadas em outubro, nas prioridades revistas e nas condições oferecidas para que as pessoas trabalhem bem. É nessa continuidade que uma mensagem de cuidado ganha credibilidade.

Na sua experiência, qual mudança concreta ajudou uma equipe a trabalhar de forma mais saudável? Compartilhe nos comentários. Sua resposta pode oferecer a outra liderança um caminho que ela ainda não enxergou.

Obrigada por chegar até aqui.

Fabiana Santiago

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Fabiana Santiago

Fabiana Santiago é mentora de carreiras, headhunter e psicanalista clínica. Ela atua em consultório particular desde 2009, seguindo a linha freudiana e de seus sucessores. Desde 2001, Fabiana realiza trabalhos na área de recursos humanos para empresas de todos os portes e diversos segmentos.

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