Se você acompanha o mercado de trabalho brasileiro, provavelmente já se fez uma pergunta: como é possível existir tanta gente procurando emprego e, ao mesmo tempo, tantas empresas afirmando que não conseguem preencher suas vagas? Esse é um dos maiores paradoxos da atualidade. Não estamos diante da falta de pessoas. Estamos diante da falta de conexão entre o que o mercado procura e o que os profissionais oferecem.
A Pesquisa Global de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, revela um dado que merece nossa atenção: 80% dos empregadores brasileiros afirmam ter dificuldade para encontrar os profissionais de que precisam, percentual acima da média mundial, de 72%. No Estado de São Paulo, principal polo econômico do país, esse índice chega a impressionantes 88%. Nas empresas com 1.000 a 4.999 colaboradores, a dificuldade alcança 90%.
Como headhunter há mais de duas décadas, confesso que essa realidade não me surpreende. Ela aparece diariamente nas mesas de entrevista, nas conversas com executivos e nas reuniões com clientes. O mercado mudou mais rapidamente do que profissionais e empresas conseguiram acompanhar.
Durante muitos anos acreditou-se que experiência bastava. Depois, acreditou-se que diplomas resolveriam tudo. Hoje sabemos que nenhum dos dois, isoladamente, garante empregabilidade. As organizações buscam profissionais capazes de aprender continuamente, adaptar-se às mudanças, comunicar-se com clareza, resolver problemas complexos e utilizar a tecnologia como aliada. Ao mesmo tempo, milhares de candidatos continuam investindo apenas em competências técnicas, enquanto negligenciam habilidades comportamentais que passaram a ser determinantes.
Curiosamente, a própria pesquisa mostra que comunicação, colaboração, ética profissional, adaptabilidade e pensamento crítico estão entre as competências mais difíceis de encontrar. Não por acaso, são justamente aquelas que nenhuma inteligência artificial consegue substituir completamente.
Mas seria injusto atribuir toda a responsabilidade aos profissionais. As empresas também enfrentam seus próprios desafios. Ainda encontro organizações que desejam contratar um profissional com dez anos de experiência, domínio de diversas tecnologias, inglês fluente, disponibilidade imediata, perfil de liderança e excelente comunicação, oferecendo salários incompatíveis com esse nível de exigência.
Em outros casos, processos seletivos excessivamente longos acabam afastando excelentes candidatos, que recebem outras propostas antes da conclusão da seleção. Existe também uma questão pouco discutida: muitas descrições de vagas representam um “profissional idealizado”, e não um profissional real.
Enquanto isso, do outro lado da mesa, candidatos enviam centenas de currículos genéricos, utilizam perfis desatualizados no LinkedIn, não investem em networking, chegam despreparados para entrevistas e desconhecem completamente o posicionamento da empresa para a qual desejam trabalhar.
O resultado é previsível.
Empresas acreditam que não existem talentos e profissionais acreditam que não existem oportunidades, mas na realidade, ambos estão olhando para lados diferentes da mesma ponte. Esse desalinhamento tem impactos econômicos relevantes. Vagas abertas por meses reduzem produtividade, aumentam custos e sobrecarregam equipes. Da mesma forma, profissionais desempregados ou subutilizados perdem renda, autoestima e competitividade. Trata-se de um problema que vai muito além do RH. É uma questão de desenvolvimento econômico, educação e estratégia organizacional.
A boa notícia é que algumas empresas já compreenderam isso. Em vez de esperar profissionais “prontos”, passaram a investir fortemente em desenvolvimento interno, programas de upskilling e reskilling, flexibilização do trabalho e ampliação das estratégias de atração de talentos. Segundo o ManpowerGroup, essa é hoje a principal resposta das organizações ao cenário de escassez de talentos.
Do lado dos profissionais, a lógica também precisa mudar, a empregabilidade deixou de significar apenas possuir um currículo robusto. Hoje ela depende da capacidade de aprender, desaprender e reaprender continuamente. Em psicanálise, aprendemos que crescer exige abandonar antigas formas de funcionamento para construir novas possibilidades. Talvez essa seja uma metáfora interessante para o mercado de trabalho atual. O maior obstáculo nem sempre é a falta de conhecimento, mas a resistência à transformação.
O paradoxo da empregabilidade não será resolvido apenas com mais vagas ou mais candidatos. Ele será resolvido quando empresas investirem em potencial, e profissionais entenderem que carreira não é um destino. É um processo permanente de construção. A pergunta que fica é simples, mas poderosa: estamos realmente diante de uma escassez de talentos ou de uma escassez de adaptação às novas exigências do trabalho?
E você, na sua experiência, acredita que o maior desafio hoje está na falta de profissionais qualificados ou na forma como empresas e candidatos estão se encontrando? Compartilhe sua visão nos comentários e, se este artigo fez sentido para você, compartilhe com sua rede.
Obrigada por chegar aqui e até breve!
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