Durante muito tempo, a ideia de segurança profissional parecia caber em uma frase simples: escolha uma carreira, encontre uma boa empresa, trabalhe com dedicação e cresça dentro dela. Essa promessa nunca foi perfeita, mas organizou a vida de muitas gerações. O trabalho oferecia mais do que salário. Oferecia identidade, pertencimento e a sensação de que o futuro seguia alguma ordem.
Essa ordem está mudando. Em mais de 25 anos trabalhando com recrutamento, carreira, lideranças e saúde emocional, percebo que o profissional de hoje não deseja apenas crescer. Ele quer saber se continuará de pé quando o cargo, a empresa ou o mercado mudarem.
A segurança profissional está ganhando novas camadas
Um relatório divulgado em 15 de setembro pelo Glassdoor revelou que 76% dos profissionais millennials estão questionando os rumos da própria carreira. Entre os entrevistados, 68% disseram ter adiado alguma decisão importante da vida por causa da insegurança profissional, e as menções ao esgotamento apareceram 44% mais entre os millennials do que entre outras gerações.
Fonte: https://www.glassdoor.com/blog/guide/millennial-stability-stacking-report/
O relatório deu um nome interessante à resposta encontrada por parte desses profissionais: stability stacking, algo que poderíamos traduzir como “construção de estabilidade em camadas”. Em vez de depositar toda a segurança em um único cargo, empregador ou setor, as pessoas começam a combinar competências, redes de relacionamento, projetos paralelos, novas formações e diferentes possibilidades de renda. Não é exatamente uma fuga do trabalho tradicional. É uma tentativa de não ficar inteiramente vulnerável a ele.
Da carreira em linha reta ao repertório
Durante muito tempo, um currículo considerado “bom” precisava demonstrar linearidade. Esperava-se que cada experiência levasse naturalmente à seguinte, como os degraus bem-comportados de uma escada. Hoje, muitas carreiras se parecem menos com uma escada e mais com uma casa que vai ganhando novos cômodos.
Eu mesma reconheço isso em minha trajetória. Comunicação, Filosofia, Psicanálise, Recursos Humanos e, agora, Direito poderiam parecer caminhos diferentes quando observados separadamente. No entanto, todos se encontram no mesmo ponto: compreender pessoas, conflitos, escolhas, relações de poder e o modo como o trabalho atravessa a vida humana. Aquilo que, em determinado momento, poderia ser interpretado como dispersão tornou-se repertório.
Essa experiência também aparece nas conversas que tenho com profissionais experientes. Eles já não perguntam apenas como conseguir uma promoção. Perguntam como continuar relevantes, como criar novas possibilidades e como não perder tudo caso a empresa mude de direção. Talvez a nova segurança profissional não esteja em permanecer no mesmo lugar, mas em carregar consigo algo que possa atravessar lugares diferentes.
Quando a segurança se transforma em exaustão
Construir alternativas não significa transformar cada pessoa em uma pequena empresa obrigada a trabalhar o tempo inteiro. Existe uma fronteira delicada entre diversificar a carreira e viver em estado permanente de alerta. Quando essa busca nasce apenas do medo, pode se transformar em outra forma de aprisionamento: a pessoa coleciona cursos, projetos e atividades, mas nunca sente que está suficientemente preparada. A ansiedade veste a roupa da produtividade e passa despercebida.
Pela perspectiva psicanalítica, acumular possibilidades também pode funcionar como uma tentativa de controlar um futuro que, por natureza, nunca será totalmente controlável. Nenhuma formação elimina todas as incertezas. Nenhuma rede de contatos oferece proteção absoluta. Nenhuma carreira se torna invulnerável às transformações econômicas, tecnológicas e humanas.
Construir segurança em camadas precisa ser diferente de construir exaustão em camadas. A verdadeira força dessa estratégia está em ampliar a autonomia: desenvolver uma competência que continue valiosa fora da empresa atual, cuidar da reputação antes de precisar dela, manter relações profissionais que não existam apenas quando há uma vaga aberta e experimentar uma nova direção sem destruir, por impulso, tudo o que já foi construído.
O que as empresas precisam compreender
Uma pesquisa recente divulgada pela Reuters mostrou que 70% dos profissionais da geração Z que trabalham na área da saúde nos Estados Unidos pretendem procurar novas oportunidades no próximo ano. Curiosamente, 65% afirmaram desejar permanecer por pelo menos cinco anos com um único empregador.
À primeira vista, os dados parecem contraditórios. Não são. As pessoas ainda desejam estabilidade, mas já não aceitam com a mesma facilidade confundi-la com imobilidade. Querem permanecer onde conseguem enxergar crescimento, aprendizado e futuro. Na mesma pesquisa, apenas um em cada quatro profissionais declarou confiar que seu empregador investiria em seu desenvolvimento.
Quando uma empresa não ajuda o trabalhador a imaginar o próprio futuro dentro dela, ele começa a construir esse futuro do lado de fora. Há profissionais que crescerão aprofundando uma especialidade durante décadas. Outros construirão valor justamente na combinação entre diferentes conhecimentos. O ponto central não é quantos caminhos alguém percorre, mas se esses caminhos formam uma história coerente.
O que continuará com você?
Talvez a pergunta mais importante da carreira contemporânea já não seja “qual cargo quero ocupar?”, mas “o que estou construindo que continuará comigo quando este cargo terminar?”. Empresas mudam. Tecnologias mudam. Mercados mudam. Até os nossos desejos mudam silenciosamente enquanto estamos ocupados tentando cumprir o plano antigo.
Segurança profissional não é garantir que nada se transforme. É desenvolver recursos internos, relacionais e profissionais para não desaparecer quando a transformação chegar.
Hoje, a sua segurança está concentrada em um único emprego ou também vive nas competências, relações e possibilidades que você vem construindo? Comente e participe desta conversa. Demonstrar interesse por esse tema também é uma maneira de mostrar às empresas que carreira, desenvolvimento e segurança precisam voltar a caminhar juntos.
Obrigada por chegar aqui e até a próxima!
Fabiana Santiago