A carreira que esperam de mim é a carreira que eu desejo?

Em mais de 25 anos acompanhando profissionais, líderes e empresas, conheci muitas pessoas consideradas bem-sucedidas que não conseguiam responder a uma pergunta aparentemente simples: “É esta a vida profissional que eu realmente quero?”

Tinham bons cargos, formação respeitada, experiência, reconhecimento e salários compatíveis com suas responsabilidades. Ainda assim, alguma coisa parecia fora do lugar. Não era necessariamente falta de competência, ingratidão ou ausência de ambição. Muitas vezes, era apenas o momento em que começavam a perceber que haviam construído uma carreira admirável aos olhos dos outros, mas distante de si mesmas.

Uma pesquisa divulgada hoje ajuda a dimensionar essa dificuldade. Quando questionados se sabiam o que realmente desejavam para a vida profissional, além do que se esperava deles, somente 49% dos líderes e 38% dos liderados afirmaram ter clareza. O levantamento ouviu 774 profissionais com nível superior e mais de 25 anos.

Isso significa que uma parcela expressiva de pessoas trabalha, entrega, progride e assume novas responsabilidades sem ter certeza de que está caminhando na direção que deseja.

O desejo que aprendemos a terceirizar

A psicanálise nos ensina que o desejo humano não nasce isolado. Desde muito cedo, aprendemos a reconhecer o que parece valioso pelo olhar dos outros.

A família diz que determinada profissão oferece segurança. A escola valoriza algumas habilidades mais do que outras. A empresa apresenta um caminho de crescimento. O mercado exibe modelos de sucesso. As redes sociais transformam cargos, viagens, promoções e resultados em sinais públicos de realização.

Pouco a pouco, podemos começar a confundir aquilo que admiramos com aquilo que verdadeiramente desejamos.

Não significa que as expectativas familiares ou sociais sejam sempre negativas. Elas também podem nos oferecer estrutura, referências e oportunidades. O problema surge quando passamos tanto tempo correspondendo ao que esperam de nós que já não conseguimos distinguir a nossa própria voz no meio de tantas recomendações.

A pessoa sabe explicar o que precisa fazer para ser promovida, mas não sabe dizer se deseja aquela promoção. Sabe qual curso acrescentaria prestígio ao currículo, mas não consegue identificar o que gostaria de aprender. Sabe como manter uma carreira estável, mas perdeu a intimidade com a pergunta: “O que ainda faz sentido para mim?”

O sucesso também pode se transformar em prisão

Ao longo da minha trajetória como consultora de carreira e psicanalista, percebi que uma das decisões mais difíceis não é abandonar um caminho que fracassou. É reconhecer que um caminho bem-sucedido deixou de representar quem somos.

Quando tudo parece estar funcionando, o sofrimento encontra menos espaço para ser legitimado. A pessoa pensa que não tem o direito de estar insatisfeita. Afinal, muitas outras desejariam aquele cargo, aquele salário ou aquela posição.

Então permanece.

Permanece por medo de decepcionar a família. Permanece porque investiu muitos anos na profissão. Permanece porque sua identidade ficou confundida com o cargo. Permanece porque não sabe quem seria sem o título que aprendeu a apresentar antes do próprio nome.

Nem sempre a prisão profissional tem portas fechadas. Às vezes, ela tem uma sala bonita, benefícios atraentes e uma carreira que todos elogiam.

Nem toda insatisfação exige uma demissão

Também é preciso cuidado para não transformar qualquer desconforto em sinal de que chegou a hora de abandonar tudo. A vida profissional contém frustrações, tarefas difíceis, conflitos e períodos de cansaço. Nenhuma carreira produzirá satisfação permanente.

Mudar impulsivamente pode apenas transportar a mesma angústia para outro endereço.

Antes de tomar uma decisão, é importante compreender a origem do incômodo. O problema está na profissão, na empresa, na liderança, nas condições de trabalho ou no momento pessoal? Existe falta de sentido ou apenas exaustão? O desejo é mudar de área ou encontrar uma maneira diferente de exercer aquilo que já se sabe fazer?

Essas perguntas não oferecem respostas instantâneas, mas impedem que uma decisão importante seja tomada apenas para interromper o sofrimento do presente.

Há pessoas que não precisam abandonar a carreira. Precisam estabelecer limites, reorganizar prioridades, mudar de ambiente ou recuperar partes de si que foram deixadas de lado. Outras, depois de uma reflexão responsável, percebem que continuar custaria mais do que começar novamente.

Uma promoção nem sempre responde à pergunta certa

No mundo corporativo, ainda tratamos o crescimento profissional quase sempre como movimento vertical. Se alguém demonstra competência, imaginamos que o próximo passo natural seja assumir uma liderança, aumentar a equipe e ampliar responsabilidades.

Mas nem todo excelente profissional deseja liderar pessoas. Nem toda promoção representa desenvolvimento. Em algumas situações, ela apenas coloca alguém competente em um papel que não combina com seus interesses, suas habilidades ou sua forma de viver.

As empresas precisam criar conversas de carreira mais honestas. Um PDI não deveria servir apenas para preparar o profissional para o próximo cargo disponível. Deveria ajudá-lo a compreender seus talentos, limites, ambições e possibilidades.

Quando a única forma de reconhecimento é subir na hierarquia, muitas pessoas aceitam funções que nunca desejaram simplesmente porque não encontram outro modo de continuar valorizadas.

Voltar a desejar exige coragem

Reconhecer o próprio desejo não significa ignorar responsabilidades financeiras, compromissos familiares ou condições reais do mercado. Escolhas maduras consideram limites concretos.

Mas maturidade também não deveria significar uma renúncia definitiva a tudo aquilo que nos dá sentido.

Talvez você ainda não saiba exatamente qual carreira deseja. Entretanto, pode começar identificando o que não quer mais normalizar. Pode observar quais atividades lhe devolvem energia, quais ambientes despertam sua curiosidade e quais conquistas continuam sendo perseguidas apenas porque um dia disseram que eram importantes.

Uma carreira não precisa ser destruída para ser reconstruída. Em muitos casos, a mudança começa silenciosamente, quando a pessoa deixa de perguntar somente “o que esperam de mim?” e volta a perguntar “o que eu desejo construir com a vida profissional que ainda tenho pela frente?”

Você está construindo a carreira que deseja ou apenas cumprindo muito bem o roteiro que escreveram para você?

Obrigada por chegar aqui e até a próxima! Fabiana Santiago

Fonte: 9ª Pesquisa Inteligência Emocional e Saúde Mental no Ambiente de Trabalho — The School of Life Brasil e Robert Half

https://www.theschooloflife.com/sao-paulo/pesquisa-inteligencia-emocional-e-saude-mental-no-ambiente-de-trabalho/

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Fabiana Santiago

Fabiana Santiago é mentora de carreiras, headhunter e psicanalista clínica. Ela atua em consultório particular desde 2009, seguindo a linha freudiana e de seus sucessores. Desde 2001, Fabiana realiza trabalhos na área de recursos humanos para empresas de todos os portes e diversos segmentos.

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